Chevrolet Agile: salvador fracassado

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O Chevrolet Agile deveria renovar a linha da Chevrolet e formar família, mas esbarrou na rejeição pública e em problemas de confiabilidade que acabaram minando suas vendas

Poucos carros nacionais sofreram tanta discriminação quanto o Agile, que logo no lançamento recebeu apelidos pejorativos e duras críticas direcionadas ao design, à mecânica e ao acabamento interno. Para azar da Chevrolet, seu novo produto recebeu forte marketing negativo em sua fase mais importante.

Na primeira década dos anos 2000 os carros da General Motors já não impressionavam pelo estilo ou pelo desempenho, e apresentavam falhas sérias de acabamento e problemas mecânicos atípicos para compradores fiéis. No fim da mesma década deu início a um doloroso processo de reestruturação que incluiu ajuda financeira do governo americano, encerramento de operações, venda de marcas e redução do portfólio de produtos.

O Agile não poderia ter sido projetado em época pior. Como não havia dinheiro sobrando para investir em um carro completamente novo (como em parte seria Onix), o jeito foi aproveitar o que havia de mais barato disponível. Em vez da plataforma do Corsa europeu ou mesmo do Corsa de 2002 foi utilizada a do Celta. Mesmo que o Corsa europeu dispussesse de motores novos, o escolhido foi o 1.4 da velha Família 1, então utilizado por Prisma e Corsa.

Para disfarçar a “gambiarra” o carro saía da fábrica na Argentina completo de “perfumarias”, itens de baixo custo e alto poder de atração, como acionamento automático dos faróis e limpadores, controle de velocidade, iluminação do painel azul, mostrador eletrônico para o ar-condicionado convencional — na tentativa de passá-lo como um automático — e rodas de liga leve. Os concorrentes de proposta semelhante eram Volkswagen Fox, Honda Fit e Citroën C3.

As críticas começaram após a primeira foto divulgada pela fábrica. Em vez das linhas básicas propostas pelo conceito GPiX em 2008 havia uma grade que ficaria grande até mesmo na S10 e rodas que pareciam pequenas, embora fossem de 15 polegadas. Frente, laterais e traseira pareciam originadas de carros distintos, tamanha a falta de harmonia. Revelado mais tarde, o interior mostrava um volante feio, puxadores de porta estranhos e quadro de instrumentos não menos esquisito. Bem visíveis eram as falhas de acabamento típicas de carros R$ 15 mil mais baratos.

Custando o mesmo que Polo, Astra e Punto 1.4 e mais caro que o Fox, o Agile fazia os primeiros compradores esperarem um carro que correspondesse em conforto e conveniência. Pelo contrário, tinha alguns problemas irritantes: isolamento acústico ruim, péssimo acabamento interno, alto consumo do motor 1.4, direção hidráulica dura, além de problemas como escapamento que aquecia a cabine e piso do porta-malas, rodar desconfortável, ruídos internos e falta de abertura interna do porta-malas.

O uso de uma plataforma defasada deu ao Agile problemas crônicos não solucionáveis. O rodar menos confortável que o do Corsa denunciava a falta de subchassi e em comum com o Celta tinha pouco espaço para as pernas, assentos estreitos, volante enviesado para a esquerda e pedais deslocados à direita e câmbio com engates longos e imprecisos, especialmente da ré. Para piorar a imagem de carro problemático a Chevrolet instalou a transmissão automatizada Easytronic, famosa pelos problemas constantes e consertos caros.

Versão de 2014

No teste de impacto o Agile recebeu zero estrela e recebeu comentários semelhantes ao do Renault Clio, projetado na metade dos anos 90. O ano-modelo 2014 recebeu dianteira menos feia e volante bonito, mas as novidades foram insuficientes para melhorar as vendas prejudicadas pelo Onix, que custava menos e o superava em vários aspectos. Não havia melhorias em rodagem ou segurança.

No lançamento a Chevrolet chegou a dizer que o Agile formaria uma família com versões sedã, picape e utilitário urbano. Apenas a picape chegou ao mercado como segunda geração da Montana. E como o Agile, foi um retrocesso em relação à anterior, embora sua carroceria tivesse volumes mais harmônicos e tivesse ficado melhor com a frente do hatch.

Com má intenção ou não, a GM tentou vender um produto com um preço que não lhe cabia, e devido às inúmeras falhas dele — sobretudo no design — acabou tendo sua imagem associada a apelidos como Frágile e Monstrana e a carros caros e defasados. A empresa acabou vendo que embora pouco exigente, o brasileiro está longe de ser facilmente enganado.


A série Losers abordará carros nacionais ou estrangeiros que foram fracassos crítico ou comercial. O Chevrolet Agile é o primeiro deles por ter uma das histórias mais emblemáticas da indústria brasileira.

 

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