Jean Ragnotti e o carrinho de supermercado

0

carrinho

Títulos chamativos ou instigantes são muito utilizados no jornalismo e na publicidade para sublinhar o texto que vem logo a seguir, muitas vezes, a criatividade fica só na chamada mesmo, e o que vemos depois é mais um feijão com arroz editorial. Se eu utilizo do mesmo expediente, é melhor que o que for escrito tenha um mínimo de valor… os dados estão lançados!

Começando pelo carrinho de supermercado, devo confessar que tenho uma mania que penso intimamente ser a mesma de diversos entusiastas por carros. No silêncio dos corredores, tendo como testemunhas apenas as gôndolas, volta e meio fico descrevendo as curvas com o carrinho mais atravessado que os antigos Escorts de Vatanen. Infantil, sem sentido, mas mesmo depois dos trinta anos, se não tiver ninguém olhando, lá vou eu “pendulando” o carrinho e fazendo um quase inaudível som de motor ardido com os lábios…O piso escorregadio ajuda, e o piloto virtual vai se deliciando com as escapadas do “eixo traseiro” do pobre carrinho. A psique humana é variada para explicar o mesmo fenômeno, o que será que um outro maluco pensa quando faz o mesmo? Eu penso em rallys, um outro imagina estar fazendo drift nas tortuosas estradas do Japão, o opaleiro convicto se imagina curvando com vontade com o seu SS 1975, e o APzeiro… dá tratos a bola para simular uma escapada de frente no momento da entrada do inevitável turbo (rs). Brincadeiras à parte, convoco os auto entusiastas que se pegam volta e meia a transportar frutas e verduras com verdadeira convicção!

Esse tipo de comportamento na verdade serve apenas para ilustrar o porque que os slides ou powerslides são tão fortes no imaginário de quem gosta de dirigir, é algo que gostamos desde pequenos, assistindo as barcas americanas em frenética perseguição na Sessão da tarde, dando aqueles cavalos de paus ou freadas inspiradas de bicicleta, brincando com carrinhos de brinquedo e inevitavelmente fazendo-os andar mais de lado do que para frente. É algo cultivado há tempos por quem gosta de carros, ver uma máquina atravessada na curva – sob controle – é pura testosterona em ebulição, é o gênio humano sobrepujando a força irracional mecânica e as leis da física, é Michelangelo mandando a estátua de Moisés falar….

Quando entramos na parte prática, observamos que o fator material é muito importante para podermos brincar com os riscos e benesses das derivas de traseira (como dizem os portugueses). È quase mandatório termos um carro de tração posterior para tanto, e é simples constatar que isso é hoje algo muito raro de obter. Considerações do mercado à parte, se tiver um bom exemplar de tração traseira, verá que com o tempo e hábito, começará a entender porque a condução forte nesse tipo de carro é algo tão viciante. Transformar “comprimento em largura” será quase que um meio de vida se as condições permitirem, e os riscos não precisam ser tão altos. Muitos alertam – com razão – que o controle de perda de aderência dos pneus traseiros é uma situação mais complicada de corrigir do que se fosse em relação aos pneus dianteiros. Concordo até um ponto, pois tudo é relativo e coloco na equação o fator velocidade. O prazer dos powerslides (derrapagem por excesso de potência) não precisam envolver velocidades terminais, aliás, para isso, só se o carro for um monstro de potência.

Se entrar na sua rotatória preferida e molhada – todos entusiastas têm sua curvinha especial – e aplicar potência em segunda marcha, sentirá a deliciosa sensação de deslocamento do eixo traseiro, volante leve, e a necessidade quase orgânica e natural de virar o volante ao contrário para corrigir, algo tão instintivo como o revide de um animal que é atacado; golpe e contra golpe…

Se fizer o mesmo com um carro de “rebanho” (tração dianteira), vai virar o volante até o batente do lado interno da curva e ele continuará abrindo até quase bater na outra guia da calçada, o tração traseira retifica a curva, fecha ela, o dianteiro abre e pode ir de encontro ao obstáculo inexorável, dando poucas opções de reação. Já tive que me utilizar do expediente do freio de mão mais de uma vez para evitar pequenos enroscos, mas minha modéstia exige declarar que só tive o insight salvador mais pela condição zero de atrito do que propriamente pela velocidade; assim tive tempo.

Ou seja, até certa velocidade, a correção de carros de tração traseira é algo mais natural e menos perigoso do que os dianteiros – até certa velocidade – mas diversão não precisa estar atrelada necessariamente ao fardo perigoso das altas velocidades. Tudo é relativo…

Um iniciante em um kart indoor, depois de algumas curvas, com a confiança crescendo, logo vai descrever arcos mais pronunciados com a traseira, mesmo que não traga um bom resultado nos tempos dirigir de forma exuberante, mas as correções e contra esterço nos trazem de novo a cabeça a palavra “naturalidade”, algo que têm que ser como é.

Carros de tração dianteira, só irão se comportar assim em situações mais específicas: frenagem afoita em curva, entrando forte em curvas com cascalho, pneus traseiros mais gastos e outros fatores. Correções nesse sentido, com esse tipo de configuração de tração, é algo que exige um pouco mais de especialidade. É pé no fundo e fé em Deus! Ver uma prova do campeonato de marcas – em um Tarumã molhado – é testemunhar a enorme habilidade que os pilotos têm que mobilizar…algo realmente épico mas infelizmente subestimado.

Na verdade todas essas considerações, que qualquer um com um pouco mais de experiência pode atestar, contestar ou explicar muito melhor, servem de preâmbulo para demonstrar o que o verdadeiro entusiasmo e talento podem fazer em favor da mítica que envolve a cena de “fazer o carro andar de lado”, mesmo que seja um reles tração dianteira.

Finalmente entra Jean Ragnotti!

O pequeno Jean é um laureado piloto de rally, um daqueles eleitos por Deus para lembrar que a pobre condição humana as vezes extrapola para esferas mais altas. Seu talento é visto e revisto em incontáveis blogs, mas tive a ideia de incluir ele após pesquisar um pouco a vida esportiva da Renault – inspirado pela avaliação de uma Megáne pelo grande Arnaldo Keller – e acabei reencontrando esse ícone da marca nos anos noventa.

Ver o que Jeannu faz, subvertendo qualquer lógica de auto preservação e leis da física, é tentar entender o inexplicável. O que escrevi antes ganha outra dimensão nas mãos dele, um tração dianteira se transfigura no verdadeiro carro de Apolo; mas riscando o chão com fogo, e não o céu.

Me lembra Hannibal Lecter em rara expiação: “Eu não posso ser explicado, eu apenas existo”.

O quê Jeannu fazia com um carrinho se supermercado?

__________
N.E.: Publicado originalmente no blog Meu Amigo de Lata em 4 de setembro de 2010

Leia também

Powered by themekiller.com