Mais Belos: Porsche 911 Carrera

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O que manteve o Fusca entre nós por tanto tempo foi o carisma que superava suas limitações de espaço, desempenho e conforto. Em seus últimos anos o velho besouro conseguiu manter compradores e fãs mesmo diante de concorrentes mais confortáveis e bonitos. O mesmo aconteceu com o Porsche 911, que se superou e hoje é referência. Bem, é impossível contar a história desse esportivo alemão sem lembrar do nosso carismático Volkswagen, afinal, ambos foram concebidos pela mesma pessoa, Ferdinand Porsche.

O 911 mantém os traços básicos da carroceria há mais de cinco décadas e diferentemente do Fusca está longe de estar sob os pés dos rivais. Mesmo que quase consiga concorrer em preço com carros “mundanos” como o BMW M3 também consegue jogar contra Ferrari, Lamborghini e McLaren nas versões mais caras, como a Turbo S e a GT3. Apesar da fidelidade às raízes, está sempre na vanguarda tecnológica oferecendo desempenho estonteante, ótima experiência de direção e eficiência digna de carros populares.

 

Os traços do 911 original foram feitos por Ferdinand Alexander Porsche com ajuda de Erwin Komenda; um era filho do criador da Porsche e outro, o designer do Fusca e do 356. Nada de excepcional além da cativante simplicidade, distinta dos outros carros alemães e principalmente de esportivos americanos e asiáticos. O teto curvo começava na traseira, passava pelo para-brisa envolvente e terminava em faróis destacados, como olhos de sapo. Os salientes para-lamas traseiros — um traço da personalidade atual — apareceriam décadas mais tarde na geração 930 Turbo, de 1975.

O melhor 911

A aparência da geração 991 resulta do trabalho de Michael Mauer, chefe de design da marca e responsável também por Macan — o Porsche mais vendido do mundo na atualidade — e 918 Spyder. A responsabilidade de refazer o desenho do mais icônico dos carros alemães é sempre enorme, mas o salto é sempre pequeno de uma geração a outra. A mudança mais expressiva aconteceu entre as gerações 993 e 996, que para desespero dos fãs adotou faróis de formato irregular, semelhantes aos do Boxster (outra mudança contestada foi a substituição do tradicional boxer arrefecido a ar, incapaz de cumprir normas de emissões).

O 996 trouxe a personalidade do 911 para o mundo moderno, em que Ferrari Testarossa e Lamborghi Countach já não mais existiam. Com um carro tão anacrônico era impossível à Porsche concorrer com esportivos até de marcas generalistas, como o competentíssimo Honda NSX. Além de motores completamente novos, o 996 adotou suspensão traseira multi-link, capaz de atenuar o comportamento imprevisível em curvas. A geração posterior, 997, retomou com os faróis circulares e piscas no para-choque, para felicidade dos porschemaníacos.

A beleza na simplicidade

Nas últimas décadas diversos fabricantes entraram para o segmento de esportivos baratos, mas poucas conseguiram criar e manter uma linhagem com DNA próprio — a exemplo da Nissan, que perdeu a linha na série Z e tornou o GT-R um carro superlativo em todos os sentidos, diferente do “mundano” R34. Outros partiram para carrocerias recheadas de vincos e falsas tomadas de ar, algo como o escultura fluida da Hyundai. A Porsche conseguiu manter seu genes próprios, mesmo que tenha compartilhado componentes com outros produtos do grupo Volkswagen.

O Carrera é a porta de entrada ao mundo do 911 e graças a sutileza de suas formas garante um lugar entre os Mais Belos. As versões mais radicais recebem adereços estéticos que quebram a harmonia e agregam pouco ou nada em beleza. A Porsche fez um grande esforço para manter a refrigeração do motor sem ter que usar as tomadas laterais exclusivas do Turbo, assim a lateral tem superfície contínua, com leves curvas que formam o quadril bastante sutil.

A geração 991 teve duas etapas, e é da primeira esta homenagem. A primeira tinha maçanetas exclusivas — a segunda recebeu maçanetas semelhantes às do Macan — e para-choques sutis, sem tomadas de ar maiores que o necessário. Os faróis circulares postos como jóias sobre os cantos da dianteira são o toque mais forte de nostalgia, da mesma forma que as lanternas traseiras interligadas por um filete vermelho homenageiam as gerações refrigeradas a ar. O arco de teto combina perfeitamente com a moldura das janelas e o recorte da porta enquanto as graúdas rodas traseiras dentro dos para-malas salientes remetem às patas de um ágil ranidae.

O 993 Turbo (foto de abertura, em amarelo) é sem dúvida o Porsche mais visceral em termos de design, mas o 991 Carrera ainda é o mais belo. Em meio a boatos de que o esportivo de Stuttgart deixaria de ter motor traseiro para ser uma versão maior do Cayman, eis que esta geração conserva o formato original enquanto apresenta design maduro e elegante. O Porsche 911 em suas dezenas de variações permanece fiel às suas formas originais como um culto ao carro esportivo puro. E isso nós apreciamos.

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